segunda-feira, 24 de Setembro de 2012

A última página

   Sempre que perguntavam quando me ia embora, eu respondia da mesma forma: "Não sei! Ainda falta muito tempo." E foi com essa certeza que ocupei os meus dias neste ano que foi passando sem me aperceber... até que chegou o dia de hoje e vejo-me forçado a fazer a mala porque amanhã regresso a Portugal. É verdade, a minha bolsa acaba este mês e com ela a minha estadia em São Tomé e Príncipe. Não vale a pena estar a prolongar-me acerca do que senti e vivi durante este ano - é justamente para isso que serviu este blog - por isso só posso deixar um muito obrigado a todos os que ajudaram a tornar a minha história ainda mais interessante.
    Se algum dia precisarem de um guia para vos levar a fazer qualquer um dos passeios que viram neste blog, não hesitem em contactar os meus antigos assistentes de campo:

Nity - 9917665
Gabriel - 9938271
Nelson - 9922748


sábado, 22 de Setembro de 2012

Visita à Roça Sundy


  Por 50.000 STD (≈2€) pode-se chegar de mota a Sundy a partir da cidade de Santo António - e se regatearem bem, podem ter ida e volta por 80.000 STD. O caminho até lá é muito bonito, com a estrada de terra batida pintada de vermelho e a criançada e as casas e as motas espalhadas por aí; tudo bastante "África".



    A primeira impressão que tive mal cheguei a Sundy foi que o sítio parecia uma espécie de parque de diversões que foi mal planeado, abandonado, e depois, ocupado. Os caminhos não fazem muito sentido, as árvores tapam a vista, e as pessoas estão por todo o lado, claramente habituadas a turistas.

    Não há placas mas a julgar pelo que vi, acima está uma fotografia da antiga cavalariça com as seteiras em tudo semelhantes ao que se encontraria em Portugal.

 Encontrei uma locomotiva abandonada num canto, os carris que a meteram
 no lugar já não existiam e tudo à sua volta parecia estar a cair lentamente aos bocados.
 
Fonte/bebedouro dentro da cavalariça
O relógio já desapareceu e o interior está totalmente abandonado. Disseram-me que há uns anos alguém vivia aqui, mas também essa pessoa desapareceu com o passar do tempo.


Vista das casas onde vivem as pessoas da roça. Segundo um senhor já de uma certa idade que conheci há entrada, dantes haviam perto de três mil trabalhadores (duvido, mas siga) e dormiam três pessoas em cada quarto. O que não tenho dúvidas é que esta comunidade é apenas uma sombra do que foi outrora.


quarta-feira, 19 de Setembro de 2012

Na costa do Príncipe

Comunidade pesqueira de Lapa
    Partindo de São Joaquim e descendo o caminho até ao mar (sempre com cuidado para não escorregar na lama!) chegar-se-á eventualmente a um rio que é preciso atravessar usando um enorme tronco caído. Continuando para sul através do caminho antigo, sempre com o mar do lado direito, não tardará a surgir uma pequena comunidade chamada Lapa. As pessoas, como sempre, são extremamente simpáticas e prestáveis por isso ficar simplesmente por lá a falar é uma escolha perfeitamente boa, mas se quiserem continuar, então aconselho a tirarem as botas (caso não venham de chinelos) e atravessarem o rio para continuarem até a Ana Correia.
    O caminho depois de Lapa fica ainda pior porque foi todo pisado por vacas por isso não se admirem se ficarem enterrados em lama quase até ao joelho... e se forem como eu e usarem sandálias, será uma boa altura para as tirarem e andarem descalços porque se não a lama vai chupá-las e terão que continuar descalços de qualquer maneira... Ok, já chega de lama, a paisagem é fantástica, aproveitem! E se tiverem tempo e equipamento, dêem um mergulho e explorem as grutas. Foi assim que vi uma senhora lagosta.

    Montei acampamento na foz de um rio onde almoçei enquanto esperava que as botas e as calças secassem. A paisagem fora de água era fantástica, e dentro de água também não era nada má, embora fosse difícil ver o fundo graças à diferença de salinidade entre a água do rio e a do mar. Recordando as aulas de biologia marinha, a água salgada (mais densa) assenta no fundo e a água doce (menos densa) está por cima, e a transição entre as duas cria uma espécie de "barreira" que distorce a luz e faz com que tudo pareça desfocado. Nunca me tinha acontecido e foi bem fixe ver a barreira a dissipar-se subitamente quando mergulhava.

    Saltando este rio (e os outros que se seguem - já lhes perdi a conta) chegar-se-á a Maria Correia, uma zona que tem apenas uma ou duas casas mas que é muitíssimo bonita por causa do rio que lá passa e das cascatas que esconde nas "traseiras" - peçam com jeitinho a alguém que vos leve até elas.

  Recomendo vivamente a passar por esta zona lá para o final da tarde (apesar da mosquitada implacável) porque esta face da ilha está virada para oeste por isso o sol vai pintar toda a paisagem com umas cores verdadeiramente incríveis. 

terça-feira, 18 de Setembro de 2012

Trabalho de campo no Príncipe

    Quando o trabalho de campo exige que se vá para zonas mais inacessíveis e não existe transporte próprio, a ultima alternativa são os motoqueiros. Foi assim que eu e o Simon fomos para São Joaquim para fazer contagem de papagaios e apanhar passarada com as redes.

    São quase sempre as crianças as primeiras a dar-nos as boas vindas. Apesar de muitas vezes serem chatas, faz tudo parte da experiência e não seria a mesma coisa sem termos os petizes todos à nossa volta a observar atentamente cada coisa que fazemos e a comentar sobre isso mesmo como se não os conseguíssemos perceber.
    As paisagens na ilha do Príncipe são uma perfeita loucura e este postal espera qualquer um que vá atrás de uma das casas de São Joaquim.
Campo de batalha
    Foi só por si uma aventura conseguir ferver água para o chá. O processo é demorado e trabalhoso e começa com a selecção de paus e troncos de tamanhos diferentes e o mais secos possível - coisa extremamente difícil para estes lados por isso o normal é ter-se que aproveitar quase só o centro da madeira. Depois de rachar a lenha toda até ter um autêntico degradé de tamanhos, há que montar uma caminha para isolar tudo do chão frio e molhado, e depois monta-se uma espécie de tenda de índio com os pauzinhos e queima-se um pedaço de saco de plástico e deixam-se as gotas incandescentes caírem por cima da madeira. Para quem tem jeito (e sorte) isto é o suficiente para começar uma mini fogueira que depois tem que ser cuidada com muito amor e carinho para não se apagar sem qualquer aviso... Para quem não tem jeito, é preciso soprar até ficar com os olhos vermelhos, o ranho escorrer por todo o lado e a cabeça ficar leve... ou então pode-se sempre usar as barbatanas de mergulho! Como nenhum dos métodos parecia funcionar especialmente bem, acabámos por usar um misto dos dois. Pode ter demorado mais de uma hora, mas tivemos chá quentinho ao jantar e ao pequeno-almoço!

Beija-flor-oliváceo - Cyanomitra olivacea
Simon com as mãos ocupadas

Tchibi-fixa - Horizorhinus dohrnii


segunda-feira, 17 de Setembro de 2012

No rasto das tartarugas

Barco a sair da capitania. Lá ao fundo o barco que
faz o trasfer entre as duas ilhas.
    Partimos cedo da cidade de Santo António. No barco: barbatanas, fatos de mergulho, pesos, espingardas de pesca, e pouco espaço para meter os pés; afinal éramos seis lá dentro.
    O plano do dia seria fazer uma ronda às praias do sul da Ilha do Príncipe para poder estimar a actividade das tartarugas que vêm para depositar os seus ovos.

A Joana a descodificar quatro rastos a cruzarem-se na areia!

   Sempre que víamos um rasto era preciso começar um autêntico trabalho de detective a fim de se perceber o que aconteceu ali. Uma meia-lua na areia traduz-se numa visita de exploração, um carril a terminar na floresta um possível ninho. Através dos rastos pode-se também saber a espécie da tartaruga já que há umas que deixam um rasto simétrico e outras assimétrico.

Tronco na Praia Grande
    As praias do Príncipe são autênticos postais de agências de turismo, tão paradisíacas e imaculadas que o simples acto de tirar uma fotografia parece por em risco a sua beleza.
Ilhéu do Boné de Jóquei
    E depois do trabalho feito, os rapazes foram fazer pesca submarina para ganhar uns dinheiros e nós aproveitámos e fomos fazer snorkeling. A visibilidade é simplesmente de doidos e as rochas gigantescas e cobertas de peixe. Por todo o lado se viam mais e maiores espécies que encontrei já por São Tomé, e no meio daquilo tudo, vimos uma tartaruga! Claro que tinha que ir lá a baixo vê-la e fotografá-la!

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    A tartaruga estava muito calminha e foi fantástico vê-la a "voar" para longe com tanta serenidade... se ao menos tivesse mais ar nos pulmões para ir atrás dela!

O barco depois de um dos mergulhos

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    Noutra zona encontraram ainda outra tartaruga e desta vez o Lindo disse que ia lá a baixo buscá-la só para eu o filmar. Ele mergulhou sem esforço nenhum (e sem compensar os ouvidos!?), e eu enchi os pulmões até não dar mais e fui lá a baixo ter com ele.

Tartaruga Sada (Eretmochelys imbricata) anilhada.
    Como se não bastasse estar a vê-la de tão perto, ainda tivemos a sorte de já ter sido anilhada e a Joana conseguiu obter mais dados.

domingo, 16 de Setembro de 2012

Ruínas na Praia

Vista aérea do Bom Bom Island Resort
    Apanhando uma mota (50.000 STD ≈ 2€) a partir da cidade de Santo António poder-se-á chegar rapidamente ao Bom Bom Island Resort, um dos locais mais belos da ilha do Príncipe. Como o hotel tem umas regras um pouco restritas para visitantes, é aconselhável anunciarem a presença caso queiram apenas ficar numa das praias que o cercam, mas se tiverem vontade de conhecer mais, virem à esquerda, para Oeste, e sigam a costa.

    Ao mergulhar na floresta que cerca o ilhéu BomBom somos rapidamente envolvidos pelos sons exóticos dos estorninhos (Lamprotornis ornatus) que transmitem algo a que eu chamei apenas de "tropical feeling". Desde o Uganda que não tinha esta sensação, ou pelo menos não uma sensação tão forte; foi muito bom. Outra coisa que se nota imediatamente é que o chão da floresta está muito limpo, com poucos rebentos novos, e segundo o que me disseram, os responsáveis são uns caranguejos florestais grandalhões (ver mais a baixo) que andam por lá a rapar o que podem.

  Quando chegarem à Praia da Ribeira Izé espera-vos uma fantástica ruína de uma igreja mesmo ao lado da praia. Li algures que a igreja já tem para cima de quatrocentos anos por isso se for verdade é mesmo impressionante como é que ainda se aguenta de pé quando outras ruínas em São Tomé já desapareceram totalmente.

Vista da entrada
  
    Na igreja ainda se vê os nichos onde as figuras dos santos deviam estar. Quantas pessoas terão orado ali,  onde agora brotam apenas três árvores indiferentes.


   E se ainda tiverem tempo, podem continuar pela costa porque as praias paradisíacas vão se revelando, umas a seguir às outras, cada vez mais bonitas.


   E porque não um mergulho? A visibilidade é uma coisa de outro mundo e nem é preciso ir muito longe para tropeçar num ou outro cardume mais jeitoso.


   No regresso ao ilhéu  Bombom estejam atentos a estes senhores que se costumam esconder nos buracos do caminho. Digo para estarem atentos não porque são perigosos mas sim para não perderem uma oportunidade de fotografar caranguejos terrestres tão grandes e bonitos! Os bichos são muito desajeitados por isso encurralá-los não é difícil.


sábado, 15 de Setembro de 2012

Santo António, a cidade dos figurantes

    A minha estadia no país nunca estaria completa sem fazer uma visita à ilha do Príncipe, por isso no outro dia apanhei uma mota e lá fui a deslizar em direcção ao aeroporto. Na mochila: barbatanas, máquina fotográfica, livro, roupa, amoque e pouco mais. Detesto viajar com tralha.
    À espera no aeroporto estavam já umas poucas pessoas, todas elas bem carregadas com oferendas para família e vizinhos - ainda que o peso máximo para a bagagem sejam 15kg - mas no fim todos superámos o teste da balança e sentámo-nos à espera que as malas fossem carregadas no avião.

O avião é dos mais pequenos onde já viajei e a bagagem é carregada manualmente ali mesmo à nossa frente.

Vista de dentro do avião - uma fila de cada lado e é preciso baixarmo-nos para não batermos com a cabeça no tecto.

    A viagem correu bem, sem muita turbulência, e trinta e cinco minutos depois já estávamos no Príncipe. O aeroporto é minúsculo e à minha espera estava já o Simon, um biólogo que passou os últimos meses a enlouquecer na ilha enquanto estuda o papagaio-cinzento. Depois de uma boleia rápida, estávamos finalmente na cidade de S. António, a maior no Príncipe.
    Desde o instante em que se põe o pé nesta cidade que se nota algo estranho. "Onde está toda a gente?" A cidade é muito pequena mesmo, e não tem quase ninguém. E as poucas pessoas que cruzam a cidade parecem... falsas? Como se fossem actores pagos para darem vida a uma cidade que de outra forma estaria verdadeiramente vazia... é muito estranho... e a alimentar toda esta estranheza está sem dúvida uma empresa Sul-Africana chamada HBD (acreditem ou não, quer dizer Here Be Dragons...!) que decidiu transformar toda a ilha do Príncipe num Eco Resort todo sustentável. 
Tudo arranjado, sem dúvida, mas onde estão as pessoas?
    Eco-Resort? Soa bem, sim, mas as ideias por trás desta gente parecem um pouco irreais. Só para terem uma ideia, painéis solares serão proibidos porque seriam vistos a partir do céu... e no final não se deverá ver nada a partir do céu. Eles querem reabilitar as estruturas antigas da ilha, empregar os locais, trazer brancos de fora, e com eles imenso equipamento e dinheiro. Esta malta tem dinheiro. Muito dinheiro. Enquanto lá estive, chegou um carregamento novo de fogões, frigoríficos, etc., para o pessoal todo que lá vive, mesmo que ninguém se tivesse dado ao trabalho de ver se os fogões e frigoríficos (com tomadas Sul-Africanas) cabiam nas respectivas cozinhas para onde seriam enviados! E ao que parece, na casa onde eu estava, não havia espaço para o fogão, um monstro preto e eléctrico (numa ilha onde a luz falha todos os dias). Como já disse, é muito estranho... e as pessoas que a HBD trouxe parecem também elas muito estranhas, como se emanassem uma aura de loucura que não consigo muito bem explicar. No final do primeiro dia já estava a dar em doido, por isso nem imagino como será viver e trabalhar sempre com as mesmas pessoas, todos os dias da semana, preso naquela cidade minúscula.

Toda a cidade parece-me um cenário de um filme, onde os figurantes se passeiam pelas ruas.
    Para completar esta minha fantasia de que toda a cidade é uma espécie de Truman Show, os locais ignoram os brancos (talvez por a HBD ter trazido tantos), todo o mercado da cidade é composto por meia dúzia de mesas todas a vender a mesma coisa, ninguém tem troco (para onde raio vão as moedas e as notas pequenas?!) e existe apenas um taxi em toda a cidade... vê-lo é como ver um extraterrestre...



sexta-feira, 7 de Setembro de 2012

Machismo racista

    Estou numa comunidade qualquer. À minha volta estão uma data de miúdos excitados a aprender xadrez (entre eles contam-se algumas meninas). Chega alguém mais velho (homem ou mulher, não interessa) e ralha: "Que estás a fazer? Shou! Vai, sai, sai, vai fazer qualquer coisa, vai lavar prato!" As miúdas afastam-se e voltam para casa, os rapazes ignoram ou gozam, e eu tento aguentar-me para não dizer que essa não é a maneira correcta de eles educarem os filhos...!
    Existe um machismo revoltante em São Tomé e isso vê-se claramente em todo o lado. As mulheres trabalham dia e noite, na comunidade lavam, limpam, cozinham, cuidam dos filhos; no campo, apanham búzio, lavam a roupa no rio quando não há tanque, tratam do lote, e basta estar uma a descansar um minuto que qualquer gajo lhe pode pedir para se levantar e ir-lhe buscar qualquer coisa. Ou para ir ver os filhos, ou para lhes ir fazer sei lá o quê! Elas não param e o que me mete mais impressão é que elas próprias são machistas com os próprios filhos e até umas com as outras... até pessoas extremamente simpáticas e que eu gosto imenso são machistas com as próprias mulheres, que são mais criadas que companheiras.
    Além de machista, o povo Santomense é extremamente racista, mas de uma forma totalmente oposta ao que se esperaria ao ler a afirmação. Certamente devido à sua história, as pessoas tendem a ver brancos como alguém com mais dinheiro que eles, alguém mais inteligente, alguém melhor, digamos. Já perdi a conta das vezes que estava nas comunidades e vem alguém (geralmente mais velho) a dizer que "no tempo de branco é que era..." e que "negro (dito a beliscar a própria pele) só quer roubar, não sabe aproveitar, só vem estragar," etc... É muito triste ouvir isto vindo dos próprios Santomenses e sempre que lhes tento mostrar o contrário, eles rapidamente me atiram com os feitos da classe política à cara. "Só querem é meter ao bolso..." É uma pena...
    O que motivou realmente este post foi que hoje cruzei-me com uma personagem que reunia estas duas qualidades (para não dizer defeitos) numa única cabecinha com alguns cabelos brancos. Estávamos num dos restaurantes do parque e aparece do nada este homem a dizer que "nós gostamos muito de branco" e que "branco é que nos deu a língua portuguesa" e num revirar que me ultrapassou, já estava a pedir dinheiro para uma cerveja. Até aqui tudo bem, não temos, não dá, mas o homem não se ia embora e quanto mais tempo lá ficava, mais se revelava, e lá de dentro só saia porcaria... "branco é a cor de Jesus, não é preto" e "nós preto não prestamos", etc... mas a coisa atingiu níveis mesmo maus quando veio a empregada, uma senhora nova extremamente simpática que lhe disse muito educadamente para se ir embora porque estava a incomodar o cliente. Bem, o homem começa a cuspir para ali umas palavras venenosas do pior "estão aqui machos a falar e tu não tens que te meter, feia, preta"... Ele disse muito mais porcaria mas acho que a mensagem passou. Felizmente que nunca vi nem ouvi nada assim desde os onze meses que cá estou mas se este post servir para chocar alguém, tanto melhor. A ideia é mesmo essa.
    São Tomé e Príncipe, ficarei à espera que evoluas mais um pouco, leve-leve, porque em pleno século XXI, isto é tão ridículo como inaceitável.



quarta-feira, 5 de Setembro de 2012

Fotografias de grupo



    Os tempos passados nas comunidades foram das coisas que mais me marcaram em São Tomé por isso agora que a minha estadia se aproxima do final, tenho tentado gravar parte desse sentimento sob a forma de fotografias de grupo.
    Elas começam sempre da mesma forma, com uma decisão louca mas simples de visitar todas as casas e reunir toda a gente num único local. “Vamos tirar uma fotografia todos juntos, quer vir?”
    Às vezes respondem-me apenas com um sorriso envergonhado, outras vezes dizem simplesmente que não querem, não sabem, desculpam-se como podem… Há também os que dizem que são feios, estão sujos, que estão ocupados ou que estão já a sair, e claro está, há os que largam imediatamente o que estão a fazer e começam eles próprios a reunir pessoal.
    Tiro a máquina da mochila e ponho-a algures apontada para um fundo bonito que as crianças começam imediatamente a tapar. Elas são sempre as primeiras. As pessoas vão chegando, algumas ajeitam-se, usam lenços, alisam a roupa, outras vão tal e qual como as apanhei, com a roupa da luta, como às vezes dizem. 
    “Têm que se apertar mais se não não vai dar...” Grito eu, apontando para uns quantos do lado esquerdo.
    Num instante já estão todos reunidos, riem-se e comentam. O nervosismo é palpável no ar. Mexo na máquina, ligo o temporizador para os 10 segundos, foco uma última vez, só para ter a certeza, e explico o que se vai passar como quem está prestes a fazer um truque de magia ou lançar um foguete. “Vou carregar no botão e só passado um bocado é que a máquina tira, ok? Eu vou meter-me aí ao teu lado, ok?” Alguns acenam, confusos.
    Carrego no botão, vejo aquilo a piscar, corro para um sítio qualquer, geralmente agachado na fila da frente, e sorrio. A luzinha a piscar, a espera interminável, tento contar uns segundos mas perco-me, ainda há pessoas a falar, até que se vê um flash mudo e eu salto do meu lugar sem aviso enquanto grito: “Esperem! Ninguém se mexe! Deixem ver se ficou bem!” Pego na máquina à procura de caras desfocadas. Saiu bem. Pronto, dou o sinal de Ok para toda a gente que está ali parada a olhar-me com antecipação.
    Esta é de longe a melhor parte de tirar uma fotografia de grupo. Quando toda aquela montanha de gente corre na minha direcção e me atropela e envolve completamente. Todos os miúdos a rir e a puxar, “a Edna já viu duas vezes”; os mais velhos a comentarem a cara deste ou daquele, tudo quer ver de perto, pegar na câmara (que eu não largo nem por nada), ninguém consegue ser indiferente.
    É esta parte da experiência que me convence que tirar a fotografia é muito mais do que premir um botão para congelar um instante no tempo. A fotografia aproxima as pessoas.

quinta-feira, 30 de Agosto de 2012

No barco afundado

 A decisão foi tomada mal o Chico viu um dos muitos barcos encalhados - Tínhamos que tirar um dia para ir mergulhar num deles, desse lá por onde desse! Saídas de mar seguiram-se e os dias foram passando com a data do voo de regresso deles cada vez mais próxima. E nada de barco afundado. Ontem eles tinham que fazer observações a partir do Ilhéu das Cabras mas uma corrente improvável de acontecimentos levou-nos até Micolo onde “apanhámos” a canoa do senhor Hilário (9869339) por uns simpáticos 350.000 STD (+-14€ incluindo gasolina). Num instante estávamos a empurrar a canoa debaixo do olhar curioso de toda a gente naquela praia movimentada, no instante seguinte estávamos a molhar os pés na água do ilhéu. A contagem foi fraquita mas o mesmo não pode ser dito do que se passou debaixo das ondas. Os peixes eram mais, maiores, e mais variados, havia mais esponjas, mais corais, e mais saudáveis, um túnel escavado nas rochas aqui e ali, tudo muito vivo e colorido, mas foi quando fizemos uma curta paragem num dos muitos barcos afundados que as coisas ficaram realmente interessantes! Toda a estrutura está revestida de vida marinha e é realmente espectacular voar por entre todos aqueles cabos e cordas, mergulhar debaixo da proa encalhada na areia branca, passar junto ao casco com todos os peixes a nadar indiferentes à minha presença. Adorei, e nem sei porque é que não tinha feito isto antes! Pelo dinheiro que se pagou, vale bem a pena! Até imagino que o senhor não se importasse de fazer a viagem directa até ao barco afundado por 200.000 STD (já que 125.000/150.000 era o preço da gasolina até ao ilhéu – que obriga a uma viagem maior.)

 E deixo aqui uma das filmagens feitas por lá. Quando a internet o permitir hei-de meter algo com melhor qualidade!)

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